quinta-feira, 30 de março de 2006

As matriarcas da minha família

Peço licença a quem, por ventura, ler este post, mas gostaria de dedicá-lo à matriarca da família Melo que morreu hoje (30/03). Este mês, o Departamento Pessoal do 'além vida' se cansou dos meus poucos parentes que estavam por lá e mandaram chamar mais gente. Nó último dia 12, minha tia, irmã do meu pai, nos deixou. Hoje, dia 30 de março, foi a minha bisavó, dona Nenzinha, Josefa Moreira de Melo.

Ela se tornou a matriarca dos Melo por herança do meu bisavô, Marciano Augusto de Melo, que morreu em 1979 pouco antes de eu nascer. A família Melo sempre foi, para mim, uma família de matriarcas. Quando eu nasci tanto meus bisavós paternos já haviam ido, do lado da minha mãe só restava minha bisavó. Meus avôs também morreram antes de eu nascer, restaram minhas avós.

Tudo bem, é um início bem fúnebre, mas é um desabafo. Aliás, desde que meus avôs morreram até este fatídico mês de março de 2006, ninguém mais da minha família havia atravessado a fronteira do firmamento. Até este ano.

As mulheres da minha família são fortes, a começar pela minha mãe. Eu tive pai, tenho ainda e vejo sempre, somos unidos. Aliás, tenho dois pais. O pai do meu irmão mais novo também me trata como filho mesmo tendo se divorciado da minha mãe há mais de 20 anos. Não tenho uma história triste para contar sobre minha família que justifique dizer que minha mãe é forte, é independente. Ela é porque é, porque decidiu ser, e quem conhece sabe como é.

Tudo bem, ela passou por apertos junto com minha avó Ode, quando meu avô morreu, eram cinco filhos e pouco dinheiro. Minha mãe se orgulha de dizer que começou a trabalhar aos 14 anos, minha avó se emociona com isso. Minha mãe casou e descasou várias vezes, tendo sido o primeiro casamento aos 17 anos. Diz ela que não agüenta moído de homem nenhum.

Minha avó paterna, dona Marina, viúva, sempre cuidou de todos, sempre, mesmo depois de ter seus filhos adultos e morando longe, se fez presente. Até hoje, sua principal característica é ser forte e decidida. Criou os quatro filhos muito bem, todos seguiram os caminhos que quiseram, mas bons caminhos. Quando ela está mal, não deixa que saibam, fica na surdina. Sempre foi independente e ainda o é.

Dona Ode, minha avó materna, tem uma história longa que, até hoje descobrimos novos capítulos. Mas de onde eu sei com certeza, ela perdeu o marido muito jovem ainda e, essa sim, passou maus bocados. Quando meu avô era vivo, a família tinha um padrão de vida quase luxuoso. Infelizmente ele não esperava morrer tão cedo e não deixou muita coisa para os que ficaram. Mas ela trabalhou, trabalhou e trabalhou e mostrou que sabe fazer.

Vovó Ode é o exemplo de como se deve correr atrás do que se quer. Minhas melhores lembranças dela são de ela arengando com o taxista, que, segundo ela, queria pegar caminhos mais longos para enganá-la, só por ela ser mulher. Depois com o moço da loja ou da farmácia e que "só faziam isso com ela por ela ser idosa". Ela não deixa barato. Ela batalhou muito na vida.

Por fim, chegou em Dona Nenzinha, pouco convivi com ela, que morava em Bom Jardim, Pernambuco, ma sempre foi referência para mim. Para mim, ela era a representante máxima da minha família. Ela era a mulher que mandava e desmandava, teve muitos filhos, somente uns sete 'se criaram' e hoje restam cinco.

Quando eu fui até Bom Jardim pra conhecê-la, eu já tinha uns 9 anos e tinha acabado de assistir no NE TV, da Globo Nordeste, uma matéria em que ela era a personagem principal. Era a mais velha candidata a vereadora do estado, como não lembro em que anos isso aconteceu exatamente (isto é um desabafo, não uma tese) não sei dizer a idade da minha avó, mas frase que ficou gravada da matéria na minha cabeça foi: "Já dei muito tiro de sal no prefeito quando ele era menino e vinha roubar goiaba", isso enquanto balançava a espingarda do feito.

Me lembro também que ela me deu um cabritinho, "pode escolher um que é seu e a gente cria ele aqui". Isso ficou marcado na memória porque, no ano seguinte, quando estive lá de volta, estava tendo um grande churrasco e os cabritos eram o prato principal. Chorei um dia inteiro.

Depois disso, muitas histórias surgiram, como a do menino que foi trocar as telhas da casa e pediu que ela segurasse a escada. Este era o combinado, mas quando minhas tias foram verificar, viram, dona Nenzinha com 84 anos em cima da escada reclamando com o menino que segurava o apoio; "esse menino não sabe de nada, muito menos trocar telha".

Há também a dos caminhões que saiam em carreata durante as eleições. Ela, claro, só queria ir se fosse na carroceria, junto com o "frejo", como diria minha mãe. Ela era realmente disposta. Não tinha tempo ruim. Dizem que era o terror das noras quando era mais nova, mas já conheci calma.

Certo, muitas histórias, mas uma eu presenciei. Numa bela manhã de domingo em Campina Grande, toca a campainha da minha casa, lá no Santo Antônio. "Quem será?" Era a matriarca, já com uns 86 anos ou mais, que resolvera de última hora visitar a neta. "Eu fui pra feira e um motorista de kombi disse que ia e voltava, no mesmo dia, para Campina Grande, aí eu peguei uma carona."

- Mas vó, a senhora avisou alguém antes de vir lá no sítio? Perguntou minha mãe.
- E eu preciso pedir permissão agora, é? Respondeu brava.

Depois dessa visita, estive mais um ou duas vezes em Bom Jardim, sempre planejando ir mais, sempre pensando em como seria bom fazer uma visita. Mas nesse meio tempo, minha avó começou a adoecer. Com 90 anos, depois de uma chata visita ao hospital, ela confessou para o bisneto que ela já nem reconhecia direito, "estou ficando velha." Rimos os dois, mas tive medo.

De lá para cá, ela piorou e acabou pulando de UTI para UTI sem nunca acordar. Não tive tempo ou não tive coragem para ir vê-la. Já tinha visto ela fraquinha, mas gosto de pensar nela como numa foto que fiz quando ela ainda estava forte, com seus mais de 80 anos. Soube, há poucas horas, que ela agora ia dar tiros de sal em outras bandas. Não consigo falar muito sobre "sentimentalismos" mas gosto de escrever. Este mês foi cheio de surpresas, ainda bem que ele acaba amanhã.

terça-feira, 28 de março de 2006

Assumindo as culpas

"Antonio Palocci em sua última aparição pública, no dia 24 Palocci entregou a Lula carta de renúncia ao ministério da Fazenda nesta segunda-feira, pouco depois de o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, dizer à PF que entregou ao ministro o extrato da conta do caseiro Francenildo Costa, obtido ilegalmente. O caseiro contrariou depoimento de Palocci à CPI dos Bingos e afirmou que ele freqüentava mansão de lobistas em Brasília. O ex-ministro do Planejamento, Guido Mantega, assume o Ministério da Fazenda."
UOL

Bem, eu não sou americano, para mim não interessa se o ministro trai a mulher ou não. Também não sei o que isso tem a ver com Bingos... Mas quebra de sigilo bancário é barra. Não se pode invadir a privacidade de um cidadão, nem que ele fosse um filho bastardo que tira dinheiro do pai para ficar calado. Não se deve fazer, isso é coisa para a polícia e para justiça.

Agora, convenhamos, quando o ministro Palocci renunciou ao cargo, assumiu publicamente que tem culpa, seja ela qual for. Tá, tudo bem, eu sei que é ano de eleição e ninguém quer esses escândalos ligados ao governo, mas entrar no jogo da "CPI do Fim do Mundo" não é um caminho.

Se tem culpa, que pague!

domingo, 26 de março de 2006

A piada da Veja

Realmente o ano de eleições é um ano muito triste. É o ano em que os políticos corruptos acusam seus semelhantes de também o serem, como se isso livrasse sua culpa. É o ano em que todos vemos votos sendo comprados e gente se vendendo por muito pouco. É o ano em que mentiras aparecem como verdades e verdades são tidas como mentiras.

Assim é na comunicação também. Eu, como jornalista, sou obrigado a ler o máximo possível e isso tem sido cada vez mais difícil... não por causa de nenhuma doença na vista, não. É que no jornalismo, todos falam com tom de verdade e nem todos os leitores conseguem perceber que por trás da história contada existem várias outras.

A cada semana eu tenho me surpreendido com uma revista em particular. A revista Veja tem se superado. Estas revistas semanais, como Veja, Istoé, Época, têm em sua “missão” interpretar os fatos e lançar para seus leitores tudo já ‘mastigado’. Isto é jornalisticamente aceito, é um tipo de jornalismo.

Mas o que a revista Veja tem feito é mais ou menos como o senador do PSDB Arthur Virgílio. Aliás acho que a revista devia se filiar de uma vez ao PSDB ou quem sabe ao PFL. Ela se tornou, usando as palavras de um amigo, um folhetim de direira que tem como principal objetivo criar “provas” que possam ser usadas nas próximas eleições. E são armas poderosas, uma vez que as CPIs utilizam como provas as matérias publicadas, não as evidências da polícia nem suas descobertas.

Essa semana a revista continua em sua batalha contra o “malvado” Lula, mas o mais interessante é como ela se coloca como isenta ao apresentar uma matéria com o título “40 questões do dia-a-dia sobre o que é certo ou errado”. Assim ela se coloca como especialista no assunto e, fazendo sempre o contraste com a política petista (não a política nacional, nem a política do PP ou do PMDB, mas sim a do PT), mostra o que é certo e o que é errado aos leitores.

Para mim, isso soa como piada. Isso soa a rancor. É um rancor direcionado mas não entendo o por quê. Se isso viesse de um petista, de alguém que acreditou que o partido era diferente e se sente traído com o que aconteceu, eu entenderia. Mas convenhamos que nem a Veja nem o PSDB nunca foram do mesmo time que o PT.

Portanto, só me resta pensar que o que os diretistas, nisso incluo a revista Veja, já que ela não se furta em mostrar seu posicionamento, estão é com medo. É, medo. Eles descobriram que os esquerdistas estão usando de armas semelhantes às suas para chegar ao poder e isso assusta.

No fim, quem vai dançar somos nós. No meio dessa briga toda, tem gente desejando que FHC voltasse (!), tem gente dizendo que Collor é santo e tem gente que diz ainda que o melhor seria botar os milicos para comandar o país. Estamos ferrados.

sábado, 25 de março de 2006

Copa na Alemanha, eu não vou

Este ano a Copa do Mundo de Futebol será realizada na Alemanha. Ótimo, país europeu, com uma seleção já vencedora de outras copas, mas num triste momento. Os Neo-nazistas marcam sua presença no futebol pelo mundo todo. Apesar de campanhas feitas contra o racismo, alguns jogadores ainda usam questões raciais para provocar, insultar e agredir colegas no campo.

Na Alemanha, além das famigeradas suásticas, símbolo máximo do Nazismo, serem toleradas nas arquibancadas, alguns jogadores fazem a saudação usada pelos soldados alemães na Segunda Guerra. Como é que um país pretende receber visitantes de todos os continentes do planeta sem sequer ter o sentimento de igualdade ou de respeito às diferenças?

Bem, eu tenho medo de entrar onde não sou convidado e me parece o caso da Alemanha, assim como bons pedaços da Europa. Eles parecem não querer estranhos por lá e nós somos estranhos.

Lá, não é como aqui que recebemos os estrangeiros como reis. Há quem diga que isso é ser submisso, há quem afirme ser educação. Eu fico com a segunda. Eu sou tive aquele tipo de educação que diz que os visitantes devem se sentir em casa. Nós, brasileiros, somos assim, pelo menos a maioria de nós.

Eu não sei se, mesmo se tivesse dinheiro (sou jornalista, não político), eu iria a esta copa. Já me basta ver os jogadores locais se discriminarem como se alguém aqui fosse mais “puro sangue” que outro. Aliás, esse negócio de “puro sangue” eu deixo pros cavalos. A quem vai, boa viagem, eu prefiro ficar aqui combatendo os preconceituosos por estas bandas.