terça-feira, 11 de outubro de 2016

A PEC 241 e o gato escaldado

Muitas dúvidas sobre esse projeto de emenda constitucional que prevê o congelamento do gasto real do governo por 20 anos. Por conta disso, conversei com alguns parlamentares sobre o assunto e me foi explicado que:

- As verbas passarão a ser atreladas à receita estatal. Ou seja, não se pode gastar mais do que se tem. Os empréstimos vão acabar. (Me parece razoável);

- Não há congelamento específico de rubrica na Saúde, Educação ou qualquer outra (opa, será isso mesmo?!);

- O dentro do orçamento anual, os parlamentares poderão escolher que porcentagem da verba irá para qual área (ou seja, em um ano pode ter 10% voltado para a saúde e no outro 95%, em tese).

Sendo assim, a distribuição da receita ficará ainda mais sujeita à decisão de nossos representantes no Congresso. Não haverá mais como fazer empréstimos e endividamento das União com a criação de projetos.

Isso é bom? Os que votaram sim pelo projeto garantem que sim. Garantem que é uma medida técnica e completamente despretensiosa em relação à políticas ideológicas e partidárias.

OK. Agora vamos a nossa realidade.

Primeiro ponto: Na hora da votação dessa PEC, os deputados seguravam cartazes "PEC 241 é o fim do PT", faziam dancinhas e tentavam cobrir as câmeras com suas faixas.

Segundo ponto: As contas e investimentos do país ficarão ainda mais nas mãos dos congressistas. Aqueles, que votaram tecnicamente dizendo "pela minha mãe, pelo filho da vizinha... voto sim!".


Aqueles que tecnicamente fizeram uma perícia e disseram que NÃO havia crime de responsabilidade, MAS que politicamente iriam cassar a presidenta mesmo assim.

Pois é. São esses que prometem que analisarão tecnicamente o orçamento e decidirão onde investir o dinheiro público.

O que nos resta agora é esperar que a "bancada da (Plano de) Saúde" votará em maior porcentagem para garantir construção de hospitais. Que a "bancada da Bala" votará por maior investimento nos assentamentos sociais. E que a "bancada da educação (privada)" votará sempre em mais verbas para as instituições de ensino público.


Como gato escaldado, tenho medo até de água fria.

E só para constar, segue como votaram os paraibanos:

André Amaral - PMDB - Sim
Benjamin Maranhão - Solidariedade - Sim
Damião Feliciano - PDT - Sim
Efraim Filho - DEM - Sim
Hugo Motta - PMDB - Sim
Luiz Couto - PT - Não
Manoel Junior - PMDB - Sim
Pedro Cunha Lima - PSDB - Sim
Rômulo Gouveia - PSD - Sim

Wellington Roberto - PR - Sim
Wilson Filho - PTB - Sim

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Está tudo errado nas nossas eleições

Nossa democracia tem diversos problemas, mas vou aproveitar a proximidade com o último pleito para iniciar um pensamento sobre o assunto. Fiquem tranquilos que não vou falar de candidato A ou B, nem de esquerda e direita. Não nesse texto. Hoje vou tratar de eleições.

Para facilitar minha narrativa, vou dividir em tópicos o que acho que está dando errado e depois explicar os porquês.

- Como escolhemos em quem votar;
Nós escolhemos nossos candidatos com base no que achamos importante, óbvio. Mas para alguns, o importante é ter sua vida, seu emprego ou seus interesses imediatos atendidos pelo governante.

Há quem ache importante que, independente das ações pontuais, o governante siga uma linha ideológica. Há também quem considere importante o caráter do governante acima de tudo, inclusive da possível competência dele.

Não podemos esquecer quem vota no partido independente de quem seja o candidato, assim como os que votam nos candidatos independentemente do partido em que ele está inserido.

Resumindo, a escolha é emocional muito mais que racional. Não temos o costume de analisar as opções friamente e decidir pelo melhor. Normalmente já temos um candidato antes mesmo de iniciadas as campanhas.

- Como os candidatos são escolhidos;
Eles são escolhidos pelos partidos, via de regra, levando em consideração quem tem maior chance de ser eleito. Ou seja, quem conseguir se enquadrar melhor nas regras de como os eleitores escolhem em quem votar, será o escolhido para ser o candidato.

Aí não é determinante ser o mais preparado, ter maior conhecimento técnico, ou mesmo ser o mais honesto. Tudo isso são "qualidades" desejáveis, mas não determinantes nos candidatos.

Veja que quando um político é preterido e não consegue ser aceito como o candidato de uma legenda, muitas vezes ele aposta em si e deixa o partido em busca de outro que o aceite como candidato. Ou seja, o compromisso dele com a ideologia do partido acaba quando o interesse particular dele inicia.

Mas também acontece o contrário. O partido não escolhe com base nas indicações de melhor candidato, mas com base na possibilidade de ter o sujeito eleito. Por conta disso, passa por cima de questões morais, éticas e, muitas vezes, até legais.

- Como são feitas as campanhas
Logo, chegamos a como as campanhas constroem seus candidatos. E a regra é muito clara: criar uma imagem para o candidato que se encaixe nos anseios de quem vai votar. Veja, não é achar um candidato que se encaixe no perfil desejado. É construir uma imagem que bata como esse anseio.

Isso é uma tragédia. As eleições são nada mais que o uso do marketing (na sua pior definição) para a venda de um candidato. As estratégias são as mesmas que as de qualquer produto. Com a diferença de que quase todos os candidatos são "genéricos" e estão prontos a terem sua imagem moldada para vencer.

Tipo, a publicidade e o marketing não costumam dizer que sabão glicerinado é bom para usar como comida de bebê. Ou seja, o marketing, nesse caso, tem limites. Nas eleições não! O candidato mais corrupto pode ser "vendido" como ficha limpa, o burguês vira trabalhador e os libertários viram protecionistas e vice versa. Vale tudo no jogo das eleições.

E para que ninguém (ou ao menos a massa) questione isso, vemos uma série de eventos que fomentam essa adoração emocional, em que os candidatos viram heróis, as legendas viram times e os eleitores viram torcedores/fãs que jamais aceitam os defeitos do seu lado e lutam ferozmente contra o time e seus seguidores adversários.

Se vê muito mais imagens belas, propostas sensacionais, um candidato tentando desfazer a boa imagem do outro, musiquinhas chicletes e muito auto elogio. Ou seja, "compre batom, compre batom..."

Enquanto os candidatos forem tratados como produtos e os eleitores caírem nessa, viveremos campanhas viciadas já de princípio.

E nesse jogo eleitoral atual só dois perdem: a razão e todo mundo. Só.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O machismo nosso de cada dia


Certamente alguém vai dar uma olhada no autor e dizer: "Ah, é um homem falando de machismo!" A quem chegar com essa energia, peço um pouco de confiança porque o que venho tratar é chato, mas é algo que precisa ser discutido.

Esse espaço trata da criação de filhos e se propõe a dar dicas sobre o dia a dia e vivência dos pequenos em seus primeiros anos de vida. Pois bem, a família dos neguinhos passou por uma reviravolta, dessas que muitas famílias passam, e o blog ficou uma boa temporada sem atualizações.

Onde havia um neguinho, hoje são dois. Onde havia um casal, hoje há um "pai solteiro" e uma mãe que visita e tem funções no mundo diário das crianças. Sim, os meninos ficaram com o pai. Eu.
E a partir daí começa a história de machismo que quero contar.

O mundo machista constrói que as mães são mais ligadas preparadas e aptas a lidar com as crianças. É injusto com as mulheres, se fosse verdade, teriam elas a obrigação de saber, querer e gostar disso. OBRIGAÇÃO.

Isso também é injusto com os homens que passam a ser tratados como alienígenas se souberem, quiserem ou gostarem de cuidar dos filhos. O machismo dá aos homens o papel extremamente cômodo de "fazer se quiser". Por outro lado "dá" às mães mais direitos sobre os filhos. Mas não precisa ser assim. Mas isso não é o natural. Precisamos todos, homens e mulheres, ir conta isso.

Na minha vivência particular, sempre fui eu que tive mais aptidão, paciência e, diria até, prazer em lidar com as crianças. Não, amigos, não tem nada a ver com o tamanho do amor que se sente pelos filhos. Não é isso que está sendo medido. Não misture as coisas.

Voltemos ao texto.

Quando a mãe dos meninos se estressava ao ficar com eles em casa, eu sugeri, mais de uma vez, deixar meu emprego e ficar com eles até que eles, pelo menos até que eles tivessem tamanho suficientes para serem cuidados só por babás.

Essa ideia sempre foi rechaçada pela mãe dos meninos (Ela era recém formada e eu já chefiava um setor, ou seja, ganhava melhor). Mas isso também era tratado como loucura por colegas e minha chefe (isso, mulheres), que perguntavam: "esses meninos não têm mãe, não?"

Esse tipo de pergunta se repetia quando eu precisava faltar para levar os meninos no médico ou dentista, ou quando eu chegava indisposto por noites mal dormidas devido a febres ou mesmo para dar uma das "mamadas" da noite.

Na minha casa, quem conseguia botar os bebês pra dormir depois de crises de cólica era eu, também dividia as vezes de dar o banho e de trocar as fraldas.

Alguém vai chegar nesse ponto do texto e dizer, incrédulo: "mesmo que seja verdade, não é todo homem que faz assim!" Beleza. Concordo que estatisticamente pode não ser. Mas eu imagino que numa casa sem empregada as funções domésticas sejam divididas de maneira que cada parte do casal tenha suas obrigações. Por que, então, em relação aos filhos isso seria diferente.

Não tem isso de não querer fazer. Quem é que gosta de trocar fralda de cocô? Quem é que nasce sabendo disso? Sem essa, por favor. Se não sabe, aprende. Se não gosta, faz sem gostar ou negocia outra função. Amiga, se na sua casa o homem decide o que ele vai fazer ou não, sua casa é machista. E se você acha que o filho é mais seu que dele, saiba que isso é uma estratégia para te deixar com o serviço sujo.

Pois bem. A separação aconteceu quando o neguinho mais novo tinha ainda um ano de idade. Hoje ele está com quase quatro. Nesse tempo todo os dois moraram comigo.

Mais um alerta de leitor machista! Se por um acaso o seu pensamento, caro leitor, o levou a montar uma situação litigiosa e violenta pela guarda das crianças em que a mãe teve os filhos arrancados dela, isso não aconteceu. A decisão foi tomada amistosamente levando em conta o que seria melhor para as crianças.

Mas veja como é a nossa sociedade. A separação foi devidamente comunicada às coordenações escolares e, mesmo assim, mesmo sabendo que os meninos moram com o pai, todos os comunicados são iniciados assim: "Mamãe,..."

Aí você me diz, "ihh, vai começar o mimimi". Na verdade, essa padronização pela mãe como referência reforça o que está dito no quinto parágrafo. O machismo está nas pequenas coisas. E está na sociedade, em todas as esferas sociais. Não só nos homens, não só nos mais ignorantes.

Eu sigo com minhas descobertas e percebo o machismo ainda mais perto de mim quando vejo amigas minhas. Antigas. Aguerridas no movimento feminista. Procurando sempre a mãe dos meninos para tirar dúvidas sobre coisas que eu, o pai, é que vivencio ou que eu resolvi.

Vejo, inclusive, a mãe dos meninos contando para elas como o pai dos meninos resolveu a questão. Ora me citando, ora não (o que não faz diferença). O que me deixa triste é perceber que mesmo sabendo que os meninos moram com o pai, é para a mãe que se perguntam as coisas do dia a dia dos meninos.

Tá, mas eu não desisto fácil. Na minha luta contra o machismo que esteriotipa os gêneros, já fui expulso de grupo que discutia a criação dos filhos. Fiquei ignorado algumas vezes também em discussões de redes sociais por ser pai, não mãe.

Ou seja, o sexismo, que é uma das ferramentas mais poderosas do machismo, está muito presente em muitos grupos de "pais e mães". Elas parecem não perceber o quanto isso é danoso para elas próprias, que ficarão condenadas à figura de mãe e, portanto, tendo sua condição de indivíduo diminuída.

Não é raro, ver mães que começam "comprando" todas as regras da maternidade e da "boa mãe" logo que engravidam e depois, já nos primeiros meses, percebem que aquilo não pode estar correto. É duro demais e desumano demais para algumas delas.


Acredito que não há, nem deve haver, funções pré-determinadas. Cada indivíduo tem suas próprias virtudes, anseios, aptidões e desejos. Isso não depende de gênero. É individual. Padronizar isso é danoso para todos. Óbvio que o limite do que é saudável não pode ser posto de lado, mas o equilíbrio psicológico das mães e dos pais também deve ser incluído nessa equação.