Justiça laica, graças a Deus

Mais uma crise se instalou no Brasil, não por acaso, em momento eleitoral. Ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça expôs o colega de Corte, Alexandre de Moraes, ao retirar a confidencialidade de parte das mensagens trocadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Com isso, relações, no mínimo indevidas, entre o empresário preso e parentes de magistrados surgiram.

Daria até para imaginar que essa movimentação tivesse motivos nobres, não fosse o fato de as conversas que mostram a ligação do próprio Mendonça terem sido poupadas dessa quebra de sigilo e o sem número de vazamentos de conversas específicas implicando uns e ignorando outros.

Outra questão que levanta muita suspeita, é o fato de que, para existir, a tal empreitada de Mendonça precise quebrar ritos e passar por cima de regras procedimentais. Quando ele usa de subterfúgios para iniciar uma investigação formal contra um par ou quando usa de expediente extra judiciários para ampliar o alcance político de suas ações.

Ora, não me parece nada doutrinário ou dentro do decoro das Cortes (das grandes ou das pequenas) um ministro gravar vídeo pedindo oração e se colocar como representante de um deus específico. Mais que isso, fazer ilações contra um agente público que é candidato e lançar essa gravação para ser exibida em milhares de igrejas por todo o Brasil.

A meu ver, um juiz que necessita da aprovação popular para suas ações está cada vez mais próximo de Pôncio Pilatos, da Palestina de 36 d.C., do que do julgamento justo proposto pela legislação laica que o país jura ter.

Aliás, não é o primeiro vídeo viral do “terrivelmente evangélico”. Sem mudar o cenário, ele já foi filmado e divulgado pulando e “cantando em línguas” com a senhora Bolsonaro. O que não seria um problema, se sua persona religiosa e posicionamento na igreja não interferissem nas suas ações no STF.

Não falo aqui, obviamente, de suas crenças. Afinal, ninguém é neutro. Todos temos posicionamentos sobre as questões da vida. No entanto, o código legal tem regras e os magistrados deveriam ser seus maiores defensores. A régua de medida das ações da justiça e a da legalidade e da constitucionalidade.

E em uma escalada de decisões questionáveis, o ministro, com uma canetada, destituiu o chefe da Polícia Federal, Andrei Marques, responsável pela prisão do banqueiro Vorcaro no caso do Banco Master, que investiga o desvio de recursos públicos e tráfico de influência.

O STF é palco, e com cortinas abertas, de disputas e crises políticas que antes moravam nas entrelinhas dos embasamentos das decisões, nas farpas veladas e nos bastidores da justiça. Tudo isso em meio a uma eleição que já vislumbrava a tentativa de interferência internacional e o uso criminoso das redes sociais com auxílio de inteligência artificial.

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