Palestina, uma história de colonização

Nas últimas semanas fiz uma viagem a outro mundo. Conheci a cultura árabe, conheci beduínos e me relacionei com muçulmanos e judeus. Estive por dez dias na Palestina. Já esperava diferenças culturais e me deparar com línguas totalmente estranhas a mim. Mas apesar das minhas pesquisas prévias, nada me preparou para o que testemunhei por lá.

Fiquei na cidade de Belém, mas estive também em Jerusalém, Hebron, Ramallah, Nablus, Jericó e outras cidades. Me hospedei com um grupo de outros brasileiros na casa de uma família que vive no campo de refugiados de Aida. E diferente do imaginado olhando daqui, os campos de refugiados não são todos barracas ou acampamentos.

Antes de chegar, pensei se tratarem de famílias do campo formadas apenas por agricultores, mas logo percebi que havia professores, engenheiros, médicos, eletricistas, donas de casa, fisioterapeutas, enfim gente de todo tipo. Refugiados, na Palestina, são considerados assim apesar de continuarem em seu país.

São zonas urbanas para onde foram deslocadas as famílias expulsas de suas moradias em 1948, quando o Estado de Israel foi criado e evacuou cidades inteiras para que as terras e casas fossem ocupadas pelos sionistas.

Esse espaço não foi dado a essas famílias, elas estão aguardando por uma solução definitiva. Ou seja, os campos têm cerca de 70 anos e foram definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) para agrupar o povo que perdeu suas terras e moradias. Uma solução que seria temporária e que dura até hoje.

Entre os refugiados a única coisa realmente comum a todos é a história trágica sobre como perderam suas terras e sobre como são marginalizados pelo Estado de Israel. Apesar de os campos estarem em terras palestinas segundo a ONU, são as leis de Israel que valem e as tropas armadas aplicam lei de guerra contra os palestinos.

Outro preconceito que logo caiu foi em relação ao véu das mulheres. Umas usam, outras não. Não é uma violenta imposição como imaginei do alto de minha ignorância, mas uma escolha que tem tudo a ver com a religiosidade individual de cada uma. Assim como os católicas brasileiras usam crucifixos ou não.

Por onde andei e com quem me relacionei sempre fui tratado com máximo respeito e cordialidade. Mesmo destoando esteticamente por onde passava e apesar da barreira da língua. Por lá se fala árabe, mas muitos palestinos têm o inglês como segunda língua. Isso ajudou muito na compreensão do que acontecia por lá.

A colonização que teve seu início formal em 1948 ainda não acabou. Muros e grades ainda são construídos e colônias são criadas dentro do território palestino, que é anexado ao Estado de Israel.

As colônias são ocupações consideradas ilegais pela ONU no território palestino feitas com intuito principal de ocupar território e retirar espaço dos moradores locais. Também tem o efeito de inviabilizar a permanência dos moradores e comércio palestinos. (Clique na imagem para ampliar)

Toda colônia é protegida por estruturas militares e acabam fomentando o crescimento de estruturas de acesso proibido aos palestinos, ao ponto de algumas colônias já terem ganhado o status de cidades israelenses com direito a estradas exclusivas ligando Israel a elas.

Como se vê no mapa, as colônias já estão presentes por todo o território palestino e têm a função que os bandeirantes tiveram no “desbravamento” do Brasil. Israel envia um grupo para morar no local, normalmente uma casa tomada a força por tropas militares. Em seguida, para “evitar confrontos entre os colonos e a população local”, criam uma estrutura militar. Com isso, novos colonos são enviados e novas casas são tomadas.

Lembro que essa ocupação é considerada ilegal pela comunidade internacional e crimes de guerra (execução de crianças, de médicos e de pessoas rendidas, por exemplo) são cometidos na implantação dessas colônias e seus desdobramentos.



Esta publicação é parte da matéria originalmente publicada no jornal União em 07 de abril de 2019.

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